O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou novas projeções para o Sistema Cantareira, principal sistema de represas da Região Metropolitana de São Paulo, que indicam preocupações com o nível de abastecimento após período de chuvas insatisfatórias e mantêm o sistema em estado de “restrição”. O professor Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP e da Escola de Comunicações e Artes, explica o cenário atual do abastecimento paulista.
“O Cantareira é o principal sistema de abastecimento, há um ano ele estava em 50%, hoje ele está com 20%.” A preocupação não se limita ao Cantareira, mas aos reservatórios paulistas no geral, que estão com os níveis de abastecimento em queda. “Em 2024, o nível do Sistema Integrado Metropolitano estava em 43,7% e hoje está em 25,4%. É um nível muito baixo e, mesmo com o período úmido previsto entre o final de setembro até março, a tendência é de queda”, explica o professor.
As causas dos baixos níveis de abastecimento
Côrtes explica que a chuva em excesso também pode prejudicar o abastecimento dos reservatórios. “Quando os mananciais recebem a chuva intensa, ela cai sob a superfície da água e atua como uma recarga primária dos reservatórios, mas nós também temos a recarga secundária, que é feita a partir da água infiltrada no solo, que abastece o nível dos reservatórios aos poucos nos períodos mais secos. Uma chuva muito forte encharca as camadas superficiais do solo e não permite a acumulação em profundidade”, comenta.
O desmatamento da floresta amazônica também influencia nos níveis de abastecimento dos reservatórios paulistas. “O Cantareira, por exemplo, sofre muito com a falta de chuva que vem da Amazônia. A umidade do Atlântico Equatorial entra na floresta e volta para a atmosfera, resultando em chuvas que se distribuem para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, com passagens por Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. Essas áreas que dependem da chuva amazônica vêm apresentando uma redução no volume de chuvas ao longo dos últimos 15 anos.”
O que é sistema de restrição?
Para evitar que as reservas do Cantareira e de outros reservatórios se esgotem em caso de crise, o sistema de restrição limita a quantidade de água que pode ser utilizada. “Ao final dos meses, a depender do nível de abastecimento, existe uma classificação para determinar quanto de água poderá ser retirada no mês subsequente. É um período muito preocupante, o enfraquecimento do fenômeno La Niña indica que estamos entrando em uma fase de neutralidade. Crises anteriores ocorreram exatamente dentro desse binômio, ou com La Niña, ou com a fase neutra. São meses com chuvas menos abundantes.”
“É necessário entender que a água é um recurso escasso na região metropolitana de São Paulo, independentemente se hoje chover um pouco mais ou não, a água é um recurso escasso, porque o comportamento dos reservatórios, ao longo dos últimos dez anos, demonstra isso. Não temos situações de excedente de água constantemente, não temos uma situação de plena tranquilidade para o próximo ano. Nós temos uma situação que causa muita preocupação e devemos recuperar os bons hábitos do uso racional da água que desenvolvemos durante a crise anterior.”, finaliza.
Jornal da USP no Ar – Pedro Luiz Côrtes 04/12/2025 – Publicado há 2 meses
